Esse mês eu tive o prazer de revisitar uma das minhas referências mais importantes de todos os tempos, especialmente na minha área de Tecnologia Educacional: Seymour Papert.
Quando eu li pela primeira vez alguns dos seus artigos e especialmente o livro Mindstorms, a minha visão sobre a conexão entre tecnologia e educação mudou completamente. Entender como ele conecta o construtivismo de Piaget com o seu próprio construcionismo, a materialização da aprendizagem através de “objetos para pensar com”, ligou um interruptor na minha cabeça, e as coisas começaram a fazer sentido. Não era sobre a tecnologia por si só. Era sobre a tecnologia como meio de expressão.
”Se você não programa, você é programado”
Tem aquela frase: “Se você não programa, você é programado.” Isso de alguma forma ressoa com as próprias palavras de Papert, quando ele diz que as crianças deveriam programar os computadores e não serem programadas por eles. Uma ideia discutida há quase 60 anos, e que cabe perfeitamente no que a gente vive hoje. Algoritmos moldando a nossa realidade, filtrando o que a gente vê, decidindo o que a gente pensa. Completamente atual.
Para Papert, as habilidades técnicas nunca foram o objetivo. O foco dele sempre foi na mente, não na máquina. E nessa sociedade tecnocêntrica em que a gente vive — um termo que ele mesmo ajudou a popularizar — o desafio continua sendo o mesmo: usar a tecnologia na medida certa, não como fim, mas como algo que de fato apoie a aprendizagem e nos ajude a pensar diferente sobre ela.
Duas Conversas, as Mesmas Ideias
Esse mês eu tive a chance de trazer tudo isso para duas conversas diferentes.
A Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa Núcleo Rio de Janeiro foi convidada para o Aquário Edu, da Casa Firjan, para falar sobre a edição comemorativa do Mindstorms, que completou 45 anos. Poder compartilhar com colegas tantos conceitos que tornam essa obra atemporal, e conectá-los com tudo que eu fiz e ainda faço hoje, foi uma grande honra.
Também participei de uma formação docente com colegas tecnologistas que são instrutores em programas de cursos de tecnologia no Sesc Paraná. Lá, conectei os mesmos conceitos, as mesmas ideias, à realidade da prática deles no dia a dia — focando nos quatro P’s da Aprendizagem Criativa (Projetos, Pares, Paixão e Pensar Brincando — agora somente “Brincar”), do trabalho de Mitch Resnick, construído em cima das ideias de Papert.
Tecnologia é Meio, Não Fim
No fim das contas, tecnologia é meio, não fim. Ela ajuda a acelerar e conectar, mas não substitui o que realmente importa: a experiência de aprendizagem e o sentido que ela faz para quem está ali.
Quando funciona, abre portas. Permite que o aluno crie, teste, explore, erre, refaça. Sai daquela lógica passiva de consumir conteúdo e entra em algo mais ativo, mais autoral.
Para mim, o ponto nunca foi só usar tecnologia. Foi saber por quê, pra quê e onde usar.